Durante quase dez anos da minha vida profissional, meu universo diário girou em torno de formulações, texturas, estabilidade de emulsões e o comportamento de óleos vegetais sobre a pele. Como biocosmetóloga, eu desenvolvia, testava e comercializava produtos, sempre buscando combinações que entregassem resultados reais. No entanto, em determinado momento, senti que faltava algo essencial: compreender a origem daqueles ativos.
Não bastava conhecer o óleo de andiroba ou de buriti apenas na bancada. Eu queria entender a árvore, o extrativista, a comunidade, a floresta em pé e o impacto econômico e social daquela matéria-prima. Foi esse desejo de aprofundamento que me levou a interromper o 5º período do curso de Farmácia e me lançar no Mestrado em Ciências Florestais, na área de Engenharia Florestal, na Universidade de Brasília. O mestrado foi concluído em março de 2026.
Esta é a história de uma trajetória que nasceu na prática da biocosmética e encontrou na teoria florestal um novo território de sentido.
Uma formação construída em camadas
Minha base acadêmica sempre foi marcada pela interdisciplinaridade. Graduei-me em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda. Depois fiz pós-graduação em Cosmética Natural, o que me permitiu unir o olhar de mercado com o conhecimento técnico de formulação. A experiência prática de uma década como biocosmetóloga e perfumista completou esse repertório.
Quando iniciei a graduação em Farmácia, o interesse pelos ativos vegetais e pela farmacotécnica só aumentou. No entanto, o chamado para compreender a dimensão florestal e econômica daqueles óleos se tornou mais forte do que a continuidade imediata do curso. Eu precisava ir além da bancada.
O ponto de virada: do produto à origem
O projeto inicial do mestrado envolvia o desenvolvimento de um biocosmético formulado com óleo vegetal amazônico, que eu mesma testei em um contexto pessoal de radioterapia. A experiência foi intensa e reveladora. Porém, ao longo do caminho, precisei pivotar.
Em vez de permanecer apenas no desenvolvimento do produto, transformei aquela vivência prática em uma investigação acadêmica mais ampla: como os óleos vegetais florestais da Amazônia — especialmente andiroba, buriti, copaíba, pracaxi e açaí — podem ser valorizados economicamente e socialmente por meio de sua aplicação em biocosméticos, contribuindo para a bioeconomia da floresta em pé e para o fortalecimento dos Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM).
Essa mudança de foco foi decisiva. Deixei de olhar apenas para o que o óleo fazia na pele e passei a investigar todo o caminho que ele percorre até chegar ao frasco.
O desafio de circular entre mundos
Elaborar a dissertação final em menos de três meses foi um processo intenso. Exigiu disciplina, clareza de foco e a capacidade de traduzir uma experiência prática de formulação cosmética, para a linguagem e os marcos teóricos da Engenharia Florestal.
A banca reconheceu o caráter multidisciplinar do trabalho. Um dos avaliadores chegou a comentar o quanto é desafiador trazer a experiência concreta da bancada de cosmética para o campo teórico de uma pesquisa em Ciências Florestais. Aquela observação ficou comigo. Ela evidenciou tanto a dificuldade quanto a riqueza de circular entre diferentes campos do conhecimento.
Um mês e meio após a defesa, transformei a dissertação em artigo científico e o submeti ao X Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal. Foi a primeira edição do prêmio a solicitar o formato de artigo, o que tornou a submissão ainda mais significativa.
Por que a interdisciplinaridade importa
Ao longo dessa jornada, consolidei uma convicção: a verdadeira inovação raramente nasce dentro de uma única disciplina. Ela costuma surgir nas zonas de fronteira, nos pontos de contato entre saberes que tradicionalmente não conversam.
No meu caso, a ponte se estabeleceu entre a biocosmética (com seu olhar para a eficácia, a sensorialidade e a segurança cutânea), a farmacotécnica e a bioeconomia florestal (com seu foco em manejo sustentável, comunidades tradicionais e valorização da sociobiodiversidade).
Os óleos vegetais amazônicos são um exemplo poderoso dessa interseção. Eles carregam não apenas compostos bioativos relevantes para a pele — ação antioxidante, anti-inflamatória, reparadora de barreira e emoliente — mas também, histórias de manejo, extrativismo e possibilidades reais de geração de renda para comunidades que mantêm a floresta em pé. Quando formulamos um biocosmético com esses óleos, não estamos apenas criando um produto. Estamos potencialmente, participando de uma cadeia que pode ser mais justa, mais transparente e mais alinhada com a conservação.
O que busco a partir de agora
Hoje, meu interesse está em contribuir com docência, pesquisa e projetos de extensão exatamente nessa interface. Acredito que a formação de novos profissionais — especialmente na área de Farmácia, Cosmetologia e áreas afins — ganha densidade quando inclui a compreensão da origem florestal dos ativos, dos desafios do manejo sustentável e das possibilidades da bioeconomia.
Da mesma forma, a Engenharia Florestal e os estudos de bioeconomia se enriquecem quando dialogam com as demandas reais de formulação, estabilidade, segurança e mercado de biocosméticos e saúde.
Estou aberta a colaborações, convites para disciplinas eletivas, orientações, bancas e parcerias institucionais que permitam avançar nesse território de fronteira. O nome que escolhi para este espaço de partilha — “Pontes: da Floresta à Pele” — resume bem a intenção: criar conexões reais entre o que acontece na floresta e o que chega, de forma responsável e eficaz, à pele das pessoas.
Conclusão: pontes que geram impacto
A experiência do mestrado me ensinou que é possível (e necessário), transitar entre a bancada de formulação e a teoria florestal, entre a prática profissional e a pesquisa acadêmica, entre o cuidado com a pele e o cuidado com a floresta.
Essas pontes não são apenas intelectuais. Elas têm potencial de gerar impacto concreto: produtos melhores, cadeias mais justas e uma valorização mais inteligente da sociobiodiversidade amazônica.
Se você também acredita que o futuro da inovação está no cruzamento de saberes, convido você a caminhar junto. Vamos construir novas pontes entre floresta, ciência e cuidados com a pele?