Como uma biocosmetóloga com 10 anos de prática chegou ao mestrado em Engenharia Florestal

Muitas pessoas me perguntam, com genuína curiosidade e, às vezes, com certo espanto: como alguém que passou uma década formulando, testando e comercializando biocosméticos — e que chegou a desenvolver um produto para uso em contexto de radioterapia — decide fazer mestrado em Ciências Florestais, na área de Engenharia Florestal?

A resposta não é simples nem linear. Ela passa por uma formação construída em camadas sucessivas e por uma convicção crescente de que o ativo cosmético não começa na embalagem, nem mesmo na bancada do laboratório. Ele começa muito antes: na árvore, no manejo, na comunidade extrativista e na floresta que permanece em pé.

Uma formação construída em camadas

Minha trajetória acadêmica e profissional sempre foi marcada pela multidisciplinaridade. Comecei pela Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, o que me deu uma base sólida em linguagem, narrativa e compreensão de mercado. Em seguida, veio a pós-graduação em Cosmética Natural, que me permitiu unir o olhar estratégico da comunicação com o conhecimento técnico de formulação.

Em paralelo, construí quase dez anos de prática intensa como biocosmetóloga e perfumista, desenvolvendo produtos, testando estabilidade, avaliando sensorialidade e acompanhando a resposta da pele. A graduação em Farmácia, que cheguei a cursar até o quinto período, aprofundou ainda mais meu entendimento sobre ativos, veículos e segurança.

No entanto, apesar de todo esse repertório, sentia que faltava uma dimensão essencial: a compreensão da origem florestal e do contexto socioeconômico daqueles óleos que eu tanto utilizava e valorizava. Não bastava conhecer o óleo de andiroba ou de buriti apenas na bancada. Eu queria entender a árvore, o extrativista, a comunidade e o impacto real daquela matéria-prima.

O chamado para a Engenharia Florestal

Foi exatamente essa lacuna que me conduziu ao mestrado na Universidade de Brasília. O projeto inicial envolvia o desenvolvimento de um biocosmético formulado com óleo vegetal amazônico, que eu mesma testei em um momento delicado de radioterapia. A experiência foi profundamente reveladora, tanto do ponto de vista técnico quanto pessoal.

Porém, ao longo do caminho, precisei pivotar. Em vez de permanecer restrita ao desenvolvimento do produto final, transformei aquela vivência prática em uma investigação acadêmica mais ampla e estruturada: como os óleos vegetais florestais da Amazônia — especialmente andiroba, buriti, copaíba, açaí e pracaxi —, juntamente com as comunidades tradicionais que os manejam, podem ser valorizados econômica e socialmente por meio de sua aplicação em biocosméticos, contribuindo para o fortalecimento da bioeconomia da floresta em pé e dos Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM).

O que realmente me interessa

O que me interessa, de forma cada vez mais clara, não é apenas a eficácia isolada do óleo sobre a pele. É o caminho completo que ele percorre: da floresta ao produto final. Conhecer a composição química, os ácidos graxos, os compostos fenólicos e as propriedades cosméticas é fundamental, mas permanece incompleto se não dialogar com o manejo sustentável, a rastreabilidade, as condições de trabalho das comunidades, a geração de renda e o potencial real de manutenção da floresta em pé.

Essa visão integrada só se tornou possível porque minha formação me permite circular entre diferentes linguagens e lógicas — a da formulação cosmética, a do mercado, a da ciência florestal e a da bioeconomia.

O desafio de circular entre mundos

Durante o processo de elaboração da dissertação, que ocorreu em um período intenso de menos de três meses, confrontei na prática o desafio de traduzir uma experiência acumulada na bancada para os marcos teóricos e metodológicos da Engenharia Florestal. A banca reconheceu o caráter multidisciplinar do trabalho. Um dos avaliadores destacou justamente o quão desafiador é trazer a vivência concreta da formulação cosmética para o campo teórico de uma pesquisa em Ciências Florestais.

Aquela observação permaneceu comigo. Ela evidenciou tanto a dificuldade inerente a esse trânsito quanto a riqueza que ele pode gerar.

Por que a interdisciplinaridade importa

Acredito, com crescente convicção, que a docência e a pesquisa do futuro imediato precisam exatamente desse tipo de profissional: alguém capaz de conectar teoria e prática, ciência acadêmica e saberes tradicionais, floresta e laboratório, economia e cuidado humano. A interdisciplinaridade, nesse contexto, deixa de ser um diferencial meramente estético ou discursivo. Ela se torna uma necessidade diante da complexidade dos desafios contemporâneos — da valorização da sociobiodiversidade à construção de cadeias produtivas mais justas, transparentes e ambientalmente responsáveis.

Quando olho para trás, percebo com clareza que cada etapa da minha formação — a Comunicação, a Cosmética Natural, a passagem pela Farmácia e, finalmente, as Ciências Florestais — foi preparando o terreno para a construção dessa ponte. Nenhuma dessas áreas, isoladamente, teria sido suficiente para sustentar o olhar que desenvolvi. Juntas, elas me permitem enxergar o ativo desde a árvore até o creme que chega à pele do consumidor, passando pelas pessoas que vivem na floresta, dependem dela e podem se beneficiar de uma valorização mais inteligente e justa de seus recursos.

O nascimento do Projeto Pontes

Essa experiência também me ensinou que o conhecimento ganha potência quando é compartilhado. Por isso, decidi transformar a jornada do mestrado e as reflexões que ela provocou em um espaço contínuo de partilha, que chamei de “Pontes: da Floresta à Pele”. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, ambiciosa: criar conexões reais entre o que acontece na floresta amazônica e o que chega, de forma responsável, eficaz e ética, à pele das pessoas.

Hoje, meu interesse está em contribuir com docência, pesquisa e projetos de extensão exatamente nessa interface. Acredito que a formação de novos profissionais — especialmente na área de Farmácia, Cosmetologia e áreas afins — ganha densidade quando inclui a compreensão da origem florestal dos ativos, dos desafios do manejo sustentável e das possibilidades da bioeconomia. Da mesma forma, a Engenharia Florestal e os estudos de bioeconomia se enriquecem quando dialogam com as demandas reais de formulação, estabilidade, segurança e mercado de biocosméticos.

Um convite ao diálogo

E você? Qual ponte interdisciplinar você tem construído na sua carreira? Quais saberes diferentes você tem tentado aproximar, mesmo quando isso exige sair da zona de conforto?

Acredito que temos muito a trocar e a compartilhar sobre os caminhos possíveis, quando nos permitimos circular entre territórios que tradicionalmente não conversam. Se essa reflexão faz sentido para você, deixe seu comentário ou compartilhe sua própria experiência. O diálogo é parte fundamental da construção dessas pontes.

No Projeto Pontes, seguimos construindo conexões entre floresta, ciência e cuidados com a pele. Porque a verdadeira inovação raramente nasce dentro de uma única disciplina. Ela costuma surgir nas zonas de fronteira.